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O MANIFESTO ASSEXUAL (1972)

13 de fev.
9 min de leitura

Escrito por Lisa Orlando em 1972. Essa tradução para o português foi feita em fevereiro de 2026 por Bruno Latini Pfeil e Cello Latini Pfeil e foi publicada no portal da Revista Estudos Transviades.


Nota introdutória dos tradutores

Escolhemos traduzir esse manifesto não por concordarmos com todo o seu conteúdo, especialmente no que se refere ao feminismo radical. É importante levar em consideração que o manifesto foi escrito há mais de meio século (1972), em contexto estadunidense, e que, de lá para cá, as discussões tomaram muitos rumos diferentes. Apesar de nosso olhar crítico sobre a associação da assexualidade com o feminismo radical (é importante considerar, também, que o feminismo radical passou por transformações até se tornar, hoje, trans-excludente/TERF), consideramos particularmente pertinentes algumas afirmações contidas neste manifesto. Um detalhe que nos chamou a atenção é que, no documento em inglês que encontramos, no topo da página já bastante amarelada, há um carimbo vermelho que indica que o documento do manifesto se encontrava na, ou teria sido encontrado na, Atlanta Lesbian Feminist Alliance, ou seja, Associação Lésbica Feminista de Atlanta. Além disso, foi escrito por pessoas que se identificam como mulheres (“mulheres autoidentificadas”) e que faziam parte da New York Radical Feminists, ou seja, Feministas Radicais de Nova Iorque. Tendo isso em vista, e considerando que a língua inglesa não possui artigos definidos generificados, tivemos o cuidado de traduzir as palavras no documento com generificação feminina, sem usar linguagem neutra. Consideramos que empregar linguagem neutra, aqui, seria anacrônico.

É por valorizarmos o registro histórico que fazemos essa tradução. Alguns pontos nos instigaram:


  • A observação de que o desejo sexual não deve ser o centro de um relacionamento.

  • A valorização da amizade.

  • A relação feita entre desejo sexual e opressão patriarcal.

  • A descentralização do ‘ato sexual’ em relação a contato físico/pele-a-pele, calor humano e intimidade.


São pontos que permanecem em nossos debates hoje, especialmente em discussões sobre (não-)monogamia e amor livre.

Outra questão relevante é a compreensão da assexualidade como uma escolha política, e não como orientação sexual ou algo inato da sexualidade de determinada pessoa. Nesse manifesto, a assexualidade é tida como uma estratégia de combate da dominação patriarcal. Sabemos que a assexualidade possui diferentes compreensões e formas de se manifestar. Assim como vemos com diferentes orientações sexuais, identidades de gênero e intersexualidades, entendemos a assexualidade como um espectro, e não nos propomos a defini-la de modo unívoco. Percebam que, ao fim do documento, a autora, Lisa Orlando, inclui o seguinte adendo: “Este “Manifesto” não é a última palavra sobre assexualidade: é apenas o começo. Agradeço seus comentários e críticas.”

Por fim, explicitamos que nosso desejo aqui é incentivar os debates e discussões sobre a(s) história(s) da assexualidade no feminismo/transfeminismo e em movimentos sociais nos quais se explora a diversidade sexual e de gêneros.

Talvez, dentre tantas possíveis problemáticas, possamos concordar que bolo é muito melhor.



O Manifesto Assexual


Lisa Orlando, Grupo Assexual, NYRF* [1]


*Em setembro de 1972, o Conselho de Coordenação das Feministas Radicais de Nova Iorque (Co-ordinating Council of New York Radical Feminists) formou grupos com base em semelhanças de orientação sexual. Cada grupo deveria explorar as atitudes pessoais e políticas de suas integrantes sobre sua sexualidade e comunicar essas opiniões ao grupo maior. Barbie Hunter Getz e eu percebemos que não nos sentiríamos confortáveis em nenhum dos grupos propostos (heterossexual, Lésbico, bissexual) e formamos o nosso próprio. Desse grupo, resultou um artigo cuja versão revisada é o “Manifesto Assexual”. O fato de a forma plural do artigo ter sido mantida não implica que todas as opiniões expressas nesta versão final reflitam necessariamente as opiniões de ambas as coautoras originais.



I. Origem e Definição

Nossas experiências com a sexualidade não têm sido congruentes com nossos valores feministas. À medida que nos tornamos mais conscientes sobre essa questão, começamos a perceber como o sexo permeava nossas vidas e as vidas alheias. Classificávamos nossos relacionamentos em termos sexuais — amizades ou namoros. Nos empenhamos em um processo de “avaliação”, por mais sutil ou subconsciente que fosse, com cada nova pessoa, aceitando ou rejeitando-a como possível par sexual, mesmo que nunca tivéssemos a intenção de nos envolver sexualmente. Rejeitávamos arbitrariamente grupos inteiros de pessoas por considerá-las inadequadas para relacionamentos íntimos, pois presumíamos que tais relacionamentos, por definição, incluíam necessariamente sexo. Muitas vezes, optávamos por passar tempo com pessoas simplesmente com base em sua disponibilidade sexual (o “ambiente das boates”). À medida que nos tornávamos conscientes disso em nós mesmas, percebíamos dolorosamente como estávamos sendo objetificadas pelos outros.

A assexualidade é uma consequência dessa tomada de consciência. É um conceito que passamos a empregar a partir do desejo de comunicar — não apenas através do nosso ser, mas também através da linguagem — o nosso esforço para nos livrarmos do sexismo em nossas vidas pessoais.

Neste artigo, utilizamos os termos “sexo” e “sexual” para descrever qualquer atividade cujo objetivo seja a excitação genital ou o orgasmo. O afeto físico e a sensualidade (incluindo beijos) não são, por esta definição, sexuais, a menos que tenham como objetivo a excitação genital.

Escolhemos o termo “assexual” para nos descrever porque tanto “celibatária” quanto “antissexual” têm conotações que desejamos evitar: o primeiro implica que a pessoa sacrificou a sexualidade por um bem maior, o segundo que a sexualidade é degradante ou, de alguma forma, inerentemente ruim. “Assexual”, da forma como o usamos, não significa “sem sexo”, mas sim “sem relação sexual com ninguém”.[2] Isso não exclui, é claro, a masturbação, mas implica que, se alguém tem desejos sexuais, não precisa de outra pessoa para expressá-los. A assexualidade é, simplesmente, sexualidade autônoma.



II. Filosofia

Nossa filosofia de assexualidade surgiu de nossa ética pessoal, que foi remodelada por nossa consciência feminista. Para nós, assim como para muitas outras mulheres, o feminismo significa mais do que a luta contra o sexismo. Significa “irmandade” [sisterhood] - uma nova forma de se relacionar, talvez uma nova forma de vida. A moralidade feminista, neste período da história, só pode ser definida como antitética aos valores opressivos de nossa sociedade (por exemplo, competição, objetificação). A nível pessoal, isso se reflete em nossas crenças de que: devemos tentar nos relacionar com os outros em sua totalidade o tanto quanto possível e não vê-los como objetos que existem para a satisfação de nossas necessidades; não devemos explorar os outros - ou seja, usá-los “injusta e impropriamente” - nem permitir que nos explorem; não devemos ser desonestas com nós mesmas ou com aquelas que respeitamos. Além disso, acreditamos que cada uma de nós tem a responsabilidade de examinar nosso comportamento, determinando como ele foi afetado pelo condicionamento sexista e mudá-lo se não atender aos nossos padrões.

Como feministas, condenávamos a exploração sexual das mulheres pelos homens sem perceber que nós também usávamos os outros de forma “injusta e imprópria”. O sexo interpessoal não é um padrão de comportamento instintivo; é um comportamento que aprendemos a exercer para satisfazer uma necessidade (por orgasmo) que podemos facilmente satisfazer por conta própria. Passamos a ver esse uso dos outros como explorador e percebemos que, ao permitir que os outros nos usassem dessa forma, estávamos consentindo com nossa própria exploração.

Em nossa tentativa de sermos honestas com nós mesmas, procuramos determinar quais eram nossas reais necessidades. Percebemos que tínhamos necessidades de afeto, calor humano, contato físico [skin contact na versão original, também traduzido como "contato pele-a-pele"], que nos haviam ensinado a satisfazer por meio do sexo interpessoal. À medida que começamos a satisfazer essas necessidades em nossas “amizades”, nossa necessidade e interesse pelo sexo diminuíram. Também percebemos que tínhamos necessidades de intimidade, um estado que sempre vimos como “completo” pelo sexo. Em retrospecto, percebemos que nós, e outras, tínhamos usado o sexo como um modo de autoengano, como uma forma de evitar a verdadeira proximidade, em vez de alcançá-la.

Lutamos contra nosso condicionamento de várias maneiras, especialmente em termos de papéis, mas evitamos o condicionamento básico que moldou nossa sexualidade. É difícil até mesmo especular sobre a natureza da “sexualidade ideal” (não influenciada pelo sexismo), mas temos certeza de que ela não ocuparia tanto espaço em nossas vidas como ocupa nesta sociedade. Vivemos em uma cultura de “adoradores de fetiches” [fetish-worshippers no original] que concebem o sexo com uma atenção extrema e irracional. Assim como muitas de nós fomos condicionadas a direcionar nossa energia para a preparação de refeições luxuosas, criando um fetiche a partir de uma simples necessidade para evitar o confronto com o vazio de nossas vidas como mulheres, também fomos condicionadas a buscar satisfação sexual de maneiras complicadas e tortuosas. Desde nosso envolvimento com o feminismo, nossas vidas têm se tornado cada vez mais significativas e não sentimos mais a necessidade de fetiches.

Ao examinar nossas experiências em relação aos nossos valores, chegamos à assexualidade como uma postura e um estado de ser simultâneos. O sexo interpessoal não é mais importante para nós, não vale mais o papel distorcido e muitas vezes destrutivo que tem desempenhado nos relacionamentos. Ele não define mais nossos relacionamentos nem constitui de forma alguma nossas identidades. Como mulheres assexuais, nós não (1) buscamos, iniciamos, ou continuamos relacionamentos a fim de experienciar o sexo interpessoal, (2) usamos outros para a satisfação de nossos desejos sexuais ou permitimos que nos usem para tanto, (3) tentamos satisfazer outras necessidades (por exemplo, afeto, calor humano, intimidade) por meio do sexo interpessoal, ou (4) percebemos outras pessoas de acordo com seu potencial, ou falta de potencial, de serem parceiros sexuais. Em suma, então, nossa assexualidade reflete uma rejeição ao sexo interpessoal, desde que ele não atenda às nossas condições: que seja congruente com nossos valores e totalmente incidental e sem importância para nosso relacionamento.



III. Política

Fundamental para a libertação das mulheres é a destruição do sexismo, que se manifesta, entre outras formas, na exploração sexual das mulheres pelos homens. A assexualidade é um passo em direção a esse objetivo no nível pessoal, pois elimina um dos meios pelos quais os homens nos oprimem. Por meio da nossa assexualidade, excluímos o sexo como objetivo e, essencialmente, até mesmo como possibilidade em qualquer relacionamento que possamos ter com homens.

Devido à cultura patriarcal resultante do sexismo institucionalizado, o comportamento explorador, padrão nessa cultura, tornou extremamente difícil para as mulheres realizarem seu próprio estilo independente e mais humano de se relacionar. Consequentemente, a maioria das mulheres reflete, em seus relacionamentos entre si, alguns dos padrões de comportamento explorador característicos de nossos opressores masculinos. Uma área em que a opressão das mulheres pelas mulheres pode ocorrer é, mais uma vez, a sexual; essa opressão também deve acabar antes que possamos ser verdadeiramente livres. Por meio da assexualidade, rejeitamos o sexo como um objetivo em nossos relacionamentos com as mulheres, evitando assim a objetificação sexual, a exploração e a opressão de nossas irmãs. Também aqui rejeitamos qualquer possibilidade de sexo, a menos que nossas condições sejam atendidas, e assim evitamos ser sexualmente exploradas e oprimidas.

Destruir os mitos básicos de uma determinada cultura é minar os seus próprios alicerces. A cultura patriarcal, baseada na diferenciação sexual, construiu alguns dos seus mitos mais fortes em torno da sexualidade. Acreditamos que é de extrema importância que o feminismo se dirija à exposição e destruição da atual mitologia patriarcal que, através da enganação, reforça a nossa opressão. Os mitos que mais contribuem para o papel distorcido que o sexo desempenha na vida das mulheres são:


  1. O sexo interpessoal é essencial, uma vez que o desejo sexual é uma força poderosa na vida humana e, se não for satisfeito (através do sexo interpessoal), tende a produzir infelicidade ou possivelmente doenças,

  2. É importante que qualquer excitação sexual seja sempre e/ou imediatamente satisfeita,

  3. O sexo é essencial para estreitar os laços num relacionamento, nenhum relacionamento está completo sem ele,

  4. A intimidade máxima em um relacionamento ocorre durante o sexo e/ou o orgasmo,

  5. As necessidades de afeto físico e sexo são basicamente idênticas,

  6. É quase impossível expressar satisfatoriamente o afeto fisicamente sem que também ocorra excitação sexual,

  7. As mulheres que têm pouco interesse em relações sexuais interpessoais, ou que raramente ou nunca atingem o orgasmo, são de alguma forma inadequadas.


Embora nem todos esses mitos sejam considerados verdadeiros por todas as mulheres, algumas acreditam em alguns deles em determinados momentos.

Por fim, vemos um conflito entre, por um lado, o tempo e a energia necessários para nossa luta como feministas e, por outro lado, o tempo e a energia necessários para desenvolver e manter relacionamentos nos quais o sexo é um objetivo. Se quisermos usar nossa energia de forma eficiente, uma escolha parece indicada: lutar contra o sexismo ou lutar por sexo satisfatório. Embora se possa argumentar que ignorar um problema não equivale a resolvê-lo, acreditamos que a veracidade dessa afirmação é relativa à importância que se atribui ao problema. Se considerássemos o sexo interpessoal importante, a assexualidade seria uma fuga; como não o consideramos, ela é, ao contrário, uma forma de retirar nossa energia de uma área na qual sentimos que ela está sendo desperdiçada.

Consideramos a assexualidade como um eficaz “estilo de vida alternativo” para mulheres revolucionárias, mas não afirmamos que “a assexualidade é revolução”. Nós nos definimos como “mulheres autoidentificadas”, mas não exigimos que todas as feministas adotem esse título. Nossa declaração é apenas esta: a partir da análise da natureza da nossa sexualidade e da sua reivindicação contra os equívocos sexistas que a cercam, conseguimos formar e manter relacionamentos de uma forma que reflete nossos valores e é eficaz na nossa luta pela libertação. Para nós, a assexualidade é um compromisso de desafiar e, em última instância, destruir os conceitos infundados que cercam tanto o sexo quanto os relacionamentos, que sustentam e perpetuam o patriarcado.


(Cópias adicionais deste documento podem ser obtidas por US$ 0,25 na New York Radical Feminists, Box 621, Old Chelsea Station, N.Y., N.Y., 10011. Este “Manifesto” não é a última palavra sobre assexualidade: é apenas o começo. Agradeço seus comentários e críticas.)



Notas:

[1] NYRF significa New York Radical Feminists, Feministas Radicais de Nova Iorque. [N.Y.]

[2] Na versão original, lê-se “not relating sexually to no one”, que também poderia significar algo como “não se identificar sexualmente com ninguém”. [N.T.]





 
 
 

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ISSN 2764-8133

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